Aprendendo meditação com Sri Chinmoy

Donna Halper: Você diz aos seus alunos como devem meditar, ou eles escolhem por conta própria a melhor forma?

Sri Chinmoy: Exteriormente eu lhes dou orientações muito gerais, porque a forma de meditação de cada pessoa é única e pessoal. Pela Generosidade infinita de Deus, eu tenho a capacidade de ensinar, interiormente, as suas almas a meditar. Cada discípulo meu aprende então a sua melhor forma de meditação com sua própria alma. Eu também escrevi consideravelmente sobre a meditação e as diversas técnicas interiores, e portanto eles podem ler os meus escritos.

 

Donna Halper: Para uma pessoa que está completamente sozinha e gostaria muito de meditar, há algo com que possa começar sem frequentar uma escola ou encontrar um professor para aprender?

Sri Chinmoy: Sim, claro. Ela pode ler alguns livros espirituais para se instruir e começar a meditar em casa. A melhor coisa a se ter é uma mente repleta de paz – ou seja, não permitir que quaisquer pensamentos entrem na mente. Mas a pessoa verá que alguns pensamentos entram apesar dos seus melhores esforços. Assim, é necessário fazer uma seleção e permitir que apenas os bons pensamentos permaneçam na mente. Os pensamentos ruins serão descartados assim que possível. Permitindo que apenas os pensamentos bons permaneçam, ela será capaz de obter uma certa paz de espírito. Meditação é paz na mente e bem-aventurança no coração.

 

Donna Halper: Você trouxe uma questão à tona. Facilmente consigo ouvir as pessoas dizendo por aí: “É ótimo sentar-se e pensar bons pensamentos e coisas do tipo. Mas, e quando estamos inseridos na vida material e tudo está um caos, foi um dia ruim no escritório, seu chefe gritou com você, etc.? Como é possível ter os bons pensamentos numa hora como essa?”

Sri Chinmoy: Na maior parte dos casos, a manhã indica como será o dia. De manhã, antes de começarmos a correria do dia, antes de sairmos de casa e entrarmos nas atividades do dia, se meditarmos devotadamente por alguns minutos, certamente obteremos uma certa paz interior. Essa paz levaremos em nossos corações quando formos ao escritório ou adentrarmos as variadas atividades e confusão do dia a dia. Poderemos trazer à tona essa paz interior quando precisarmos dela. Assim seremos de fato capazes de controlar a situação.

 

Donna Halper: Acho que há um tremendo precedente para isso. Se eu lembro corretamente, na Bíblia é dito que a melhor hora para se orar é pela manhã, pois, se começar o seu dia pensando nas coisas espirituais, isso o carregará pelo restante do dia. O que você diz na verdade não é muito diferente do que chamamos de religião ocidental.

Sri Chinmoy: Não há tanta diferença entre religião ocidental e oriental quanto as pessoas pensam. Somos todos filhos de Deus. Falamos diferentes línguas, mas, quando se trata do coração – o seu coração, o meu coração, o coração dela –, estamos todos afinados. É a mente que cria os problemas. O coração aspirante se comunica conscientemente com a alma, e a alma é o representante de Deus. Há sempre uma verdade incipiente dentro de todos nós. Quando se trata de verdadeira espiritualidade, não há barreiras geográficas – ocidente e oriente, norte e sul. O que existe é a unicidade do coração. É através da unicidade do nosso coração que nos satisfazemos e a Deus em e através de nós.

 

Donna Halper: Quando uma pessoa se envolve mais na espiritualidade, isso levaria a que, digamos, esteja se tornando menos presa a coisas como preconceitos. Portanto, ela não teria sentimentos contra qualquer raça, credo, etc. As pessoas que estão presas em pensamentos preconceituosos se afastaram de Deus, ou apenas não compreendem Deus, ou é ainda outra coisa?

Sri Chinmoy: Elas não necessariamente se afastaram de Deus, mas compreendem Deus de acordo com sua capacidade limitada. Um verdadeiro buscador, entretanto, não os condenará. Pelo contrário, ele tentará enxergar e sentir que os erros cometidos pelos outros são seus próprios erros, pois ele aceitou Deus completamente. Essa aceitação de Deus inclui a aceitação da criação inteira de Deus, e essas pessoas que estão cometendo enganos também são filhos de Deus. Portanto, um aspirante sincero sente que lhe é obrigatório considerar as fraquezas, fracassos e defeitos dos outros como seus próprios. Porque ele ama Deus, ele sente que tem de se identificar com a criação de Deus. Ele não pode negar a criação de Deus; não pode falar mal da criação de Deus. Ele só consegue aceitar a criação de Deus como tal e orar para Deus e meditar em Deus para que ilumine a Sua criação.

 

Donna Halper: Isso quer dizer que, se uma pessoa se envolver com a meditação, quanto mais ela meditar e mais entender sobre Deus, maior será compreensão do mundo também?

Sri Chinmoy: A pessoa terá mais compreensão, mais iluminação. Ela será capaz de aceitar o mundo ao invés de negar o mundo, pois o mundo é a criação de Deus, e Criador e criação sempre andam juntos. Se pudermos aceitá-los em conjunto, seremos capazes de satisfazer a Realidade Suprema dentro de nós.

É melhor meditar na natureza ou na cidade?

Donna Halper: Com relação à meditação (e tenho certeza de que há muitas pessoas interessadas em saber o mesmo), tenho pensado nisto: qual é a diferença entre o que se pode chamar de meditação secular – ou seja, simplesmente ir para algum lugar afastado que seja agradável e tranquilo, guardando bons pensamentos – e a meditação que você faz com o seu tipo de música e coisas desse tipo? Há alguma diferença entre elas, ou são ambas simplesmente passos pelo mesmo caminho?

Sri Chinmoy: Se algumas pessoas sentem paz de espírito vivendo em áreas mais rurais e tendo vidas mais tranquilas, isso lhes é bom. Outras pessoas podem querer vivenciar uma vida mais disciplinada. Elas sentem que a meditação é algo muito sagrado; não é algo casual. Para essas pessoas, é recomendável que meditem com máxima concentração e numa sala de meditação. Se é numa cidade ou numa zona mais rural, isso não importa. Essas pessoas certamente farão progresso mais rápido que aquelas que vão para o campo e apreciam a beleza e pensam bons pensamentos. Mas ambas as estradas levam ao mesmo destino.

O Mestre espiritual e a meditação

Abaixo trechos de uma entrevista na rádio com Sri Chinmoy, em particular os trechos que falam sobre a relação que buscadores espirituais podem ter com a figura do Mestre espiritual, no caso Sri Chinmoy.

Donna Halper: Mas as pessoas não o procuram para saber o que é Deus?

Sri Chinmoy: Elas me procuram por isso, mas são apenas as pessoas que acreditam em Deus que vêm até mim. Os ateus completos não vêm até mim. Para eles, Deus é outra coisa. O Deus de que falamos, para eles não é Deus. Mas eu tenho um profundo respeito pelo Deus deles. Se eles dissessem que Deus não existe, eu responderia “Tudo bem.” Contanto que acreditem em algo, eu sinto que esse algo é Deus, pois Deus é onisciente, onipresente e onipotente.

 

Donna Halper: Sri Chinmoy, quando as pessoas o procuram, o que elas estão buscando encontrar?

Sri Chinmoy: Normalmente elas buscam paz de espírito. Elas esperam uma melhor compreensão da vida. Elas esperam um êxtase interior.

 

Donna Halper: Você as proporciona isso?

Sri Chinmoy: Eu ofereço isso a elas, e elas recebem de acordo com sua receptividade.

 

Donna Halper: Há tantas pessoas buscando, tentando descobrir mais sobre religião. Elas não se sentem satisfeitas com a religião organizada, digamos, e por isso procuram você. Como essas pessoas saberiam se você é o Mestre espiritual certo para elas?

Sri Chinmoy: Elas serão capazes de descobrir em poucos minutos. Assim que me virem, se eu for o Mestre certo para elas, sentirão uma espécie de vibração ou sentimento de familiaridade. Elas não precisam conversar comigo. Essas pessoas sentirão uma comunicação interior. Elas verão e sentirão em mim um amigo, um amigo verdadeiro e eterno.

 

Donna Halper: E, com respeito à pessoa que vem até você e é muito cética, você também é um amigo para essa pessoa?

Sri Chinmoy: Certamente serei seu amigo, mas ela se sentirá desconfortável. Essa pessoa deverá buscar outro com quem se sinta confortável e que será capaz de orientá-la de uma maneira diferente.

 

Donna Halper: Estamos falando sobre música, meditação e religião. Continuando no tópico de religião, Guru, há tantas pessoas chamando-se de gurus nesses dias, tantas pessoas que se consideram messias, reivindicando possuírem a resposta. Como alguém que levasse a sua busca a sério poderia saber quem é um Mestre espiritual verdadeiro e quem não é?

Sri Chinmoy: Há diversas formas de se saber se um Mestre é genuíno ou não. Se o Mestre disser que poderá lhe dar a realização da noite para o dia, ele é um falso mestre. Se disser que, caso lhe dê uma quantia de centenas ou milhares de dólares, ele será capaz de lhe auxiliar a alcançar um plano superior de consciência e adquirir Paz, Luz e Deleite, esse é um falso mestre. Um Mestre verdadeiro sempre dirá ao buscador que ele, o Mestre, não é Deus; ele não é nem mesmo o Guru. Deus é o verdadeiro Mestre. O Mestre humano está apenas a serviço de Deus dentro dos buscadores. Ele não é o Guru. O verdadeiro Guru é Deus. Se um buscador quiser saber quem é um Mestre verdadeiro, com essas orientações ele normalmente será capaz de discernir o verdadeiro do falso.

 

Donna Halper: Então a pessoa que diz ter a resposta mágica provavelmente não é a pessoa que deve ser levada a sério?

Sri Chinmoy: O progresso espiritual não é como preparar café solúvel. O progresso espiritual é lento e consistente. Lenta, gradualmente e certamente devemos trilhar a Estrada da Eternidade para alcançarmos a Meta da Infinidade.

 

Donna Halper: Se alguém o procurar e decidir que você é a pessoa certa com quem deveria estudar, o que deveria fazer?

Sri Chinmoy: Há algumas regras e orientações que os buscadores deverão seguir se eu os aceitar como meus alunos. Para começar, pedirei que sejam muito simples, muito sinceros, humildes e puros. Eu recomendo uma vida muito simples.

 

Donna Halper: Lemos nos jornais sobre diversos movimentos que são bastante austeros, onde os homens e mulheres não podem ter contato mútuo. Eles não podem comer carne e, basicamente, ficam dentro dos seus lugares meditando o tempo todo. Esse é o tipo de vida que os seus discípulos têm?

Sri Chinmoy: Não, eu não advogo a austeridade. Eu não quero que meus discípulos vivam nas cavernas nas montanhas dos himalaias. Advogamos a aceitação da vida. Temos de aceitar a vida e então temos de transformar a vida. Há diversas coisas na vida humana as quais não conseguimos apreciar. Elas são as nossas tristes imperfeições. E por isso tentamos iluminar essas fraquezas. Não evitamos a vida. Aceitamos a vida, mas transformamos o que deve ser transformado.

 

Donna Halper: Além da meditação, os seus discípulos praticam cânticos ou algo desse tipo?

Sri Chinmoy: Sim, às vezes eles entoam cânticos. Eu escrevi diversas melodias para versos dos Vedas, Upanishads e Bhagavad Gita. Fiz música para vários deles, e os meus alunos às vezes os entoam.

Como podemos ter harmonia em nosso ser

Pergunta: Como podemos ter harmonia em nosso ser quando há movimentos conflitantes em nosso interior?

Sri Chinmoy: Para adquirir harmonia, é preciso de paz de espírito. Para ter paz de espírito, é preciso orar e meditar o com toda a sinceridade no Piloto Interior, que criou a necessidade de harmonia interior. Se orar corretamente, a paz de espírito e harmonia serão refletidas em todos os seus movimentos externos. Quando a mente tem paz, sempre há harmonia em todas as atividades que acontecem no ser.

Todos os dias podemos nos limitar ou nos libertar

Pergunta: Como você explicaria a queda do homem?

Sri Chinmoy: Todos os dias somos atacados pela dúvida; todos os dias somos inspirados e energizados pela fé. Quando somos atacados pela dúvida, percebemos que a nossa consciência baixa. Não conseguimos expandir. Duvidamos da nossa própria capacidade, mesmo da nossa própria existência. Quando a dúvida entra na nossa mente de manhã cedo, fica impossível sairmos do nosso pequeno quarto mental. Contudo, quando somos inspirados e energizados pela fé, sentimos que o mundo inteiro nos pertence.

Cada ser humano aqui possui dúvida e fé. Quando usa o seu instrumento dúvida, ele sente que tudo na sua vida fica circunscrito. O seu progresso é sobrestado. Mas, quando usa o outro instrumento, a fé, ele sente que está voando no mais alto plano de consciência e cantando a canção do sempre-transcendente Além.

Todos os dias podemos nos limitar ou nos libertar. Cantamos a canção das amarras consciente ou inconscientemente quando alimentamos a dúvida abundante dentro de nós. Caímos da árvore-realidade seguidamente quando brincamos com a nossa amiga-dúvida. E, quando mergulhamos fundo e trazemos à tona a nossa fé coração-iluminadora e alma-manifestadora, escalamos alto, mais alto, altíssimo na árvore-realidade.